domingo, 23 de maio de 2010

Bons eram os tempos de pouco caso
de descaso, de leveza
Onde tudo era ainda muito cedo
Onde as manhãs não eram perdidas
porque havia a certeza do sol

O retorno não existe mais
Nem as vias de mão-dupla
Agora tudo segue em uma só direção
e a gente quando viu já era tarde

As paradas no posto de gasolina são úteis
para continuar seguindo
O carro às vezes engasga
e as vezes sou eu que engasgo.

Quando percebi já não havia como
O piloto automático não me permitiu pegar a direção
de volta pra mim

E agora eu vejo,
como as coisas fugiram do meu controle.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Tudo poderia ter sido em vão
Restaria a tranquilidade de não ter que me perguntar
o porque de pisar tanto em ovos
[e ainda assim de gostar]

Se tudo tivesse sido em vão
Não seria preciso encontrar-te em meus devaneios
Nem me enfeitaria frente ao espelho na esperança de te encontrar
[Na vida ou dentro do espelho]

Como tudo não foi em vão
Contento-me com o que não foi
E em idealizar o que poderia ter sido
[e chorar]

Recomponho-me não por querer
Mas por necessidade
Sinto-me obrigada a encarar o horizonte
E sorrir para ele
[Ainda que seja tarde]

Deito-me na cama como quem guarda um lugar para alguém em sua alma.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

amou daquela vez como se fosse filha


Há mais ou menos dois anos conheci uma pessoa que mudou a minha vida por inteiro:

Isabell Allende. Escritora Chilena, sobrinha de Salvador Allende, Isabel foi capaz de revirar os meus sentimentos do avesso e não permitiu que eles voltassem até agora. Não há melhor escritora que romanceie América Latina, ficção e História do que ela. Caminha por Neruda, pela formação do Chile e pelos golpes militares ocorridos pela América Latina com uma fineza e uma intensidade de poucos.

Com ela eu me apaixonei pelo Chile e me reapaixonei - porque o bom de se apaixonar e poder desfrutar deste sentimento diariamente- pela História dos povos latino-americanos. E com ela, graças e ela, eu pude conhecer profundamente Valparaíso e todas as perversões que lá ocorreram. Os mais sórdidos romances, as mais intensas batalha, os maiores ecos de liberdade. Desde então Valparaíso faz parte da minha vida.

Hoje descobri que Valparaíso foi atingida por um terremoto que deixou a cidade em escombros. Nunca poderia ter recebido tão triste notícia. Eu já tinha vivido um terremoto em Valparaíso pelos meus livros, em meados da década de 50. Casas tendo que ser reconstruídas, pessoas que perderam tudo que tinham, parentes desaparecidos. Agora estou vivendo com o meu eu-próprio e caminhando na minha imaginação sobre cada paisagem e quase chorando.

É impressionante como ficção e realidade se confundem. Não deveriam se confundir, mas se misturar. Porque a vida é quase como uma obra de ficção que insistimos em dizer que são reais, mas que são tão criadas por nós como uma novela qualquer.

Hoje eu vou rezar por Valparaíso junto com Esteban Trueba, Celia, Blanca, com os DelValle e com o meu acumpunturista predileto. Espero que a cidade se recupere. De uma coisa é certa: o amor por Valparaíso está presente em todos aqueles que não foram, mas que sabem exatamente como é. E que amam e se apaixonam por lá como se fossem solo chileno, ou como rochas que terremotos se mostram incapazes de destruir.

Atualmente Isabel vive nos Estados Unidos. Ainda bem. Nada melhor do que novas histórias quando a memória começa a ficar turva.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Eu poderia ter um viveiro em casa. Nesse viveiro estariam todos os meus amigos. Mas não seria um viveiro que aprisiona e que não deixa a pessoa sair. Seria um viveiro ao ar livre, onde todos poderiam sempre sair, mas todos sempre voltariam, porque não haveria lugar melhor no mundo do que aquele viveiro.
Nele estariam os rouxinóis e os canários. Teriam poucos tiês-sangues, para lembrar da Ilha Grande e dos grandes amigos que fazemos. E dos lugares que se tornam cativos. Este viveiro com certeza seria um lugar cativo.
Todo dia de manhã esses pássaros cantariam e me acordariam. Não por obrigação, apenas por serem bons amigos. Depois disso eles iriam em outras casas para alegrar as pessoas tanto quanto eles alegram a mim.
Cada pássaro seria para um pensamento ou uma ação diferente. O rouxinol para risadas, o tiê-sangue para a filosofia. O canário para a música, ou para a capoeira.

Eu poderia ter um viveiro em casa. Mas os pássaros viveriam muito menos que eu e eu me sentiria muito triste sem eles. E não adiantaria se viessem outros, porque eles seriam tão queridos quanto, mas não cobririam o espaço. É como se a cada pássaro que fosse embora, uma parte do meu corpo saísse. No fim eu até estaria aqui, mas muda e estática.
Ainda bem que eu só poderia ter um viveiro em casa. Pensando bem, prefiro ficar sem o viveiro. Assim espalho meus amigos e permito que eles ecoem seus cantos aos quatro cantos do mundo.

Meus amigos bem que poderiam ser pássaros, mas ainda bem que não o são.

sábado, 17 de outubro de 2009

- Vem aqui? Vem pra eu te dizer com meus olhos?



(Você é único).



-Vem aqui? Vem pra eu te dizer com as minhas mãos?



(Vou te agarrar aqui e agora).



-Vem aqui, vem pra eu te dizer com meu sorriso?



(Espero uma vida inteira pela alegria que você me dá).



-Vem aqui, vem pra eu te dizer com o meu calor?



(Eu sempre vou te amar).



-Vem, vem pra eu te dizer com os meus lábios?



- (...)

sábado, 10 de outubro de 2009

*

Há um que de vazio em mim
Um que de explosão
Um que de desencontro.

Há um pouco de metamorfose em mim
Um pouco de apego
Um pouco de overdose.

Há muito de você em mim
Muita paixão
Muito medo.

Há plenitude,
Insanidade.

Há desespero,
comodidade.

Há um universo,
só vejo você.


*na madrugada tentativas de escrever são geralmente mal-sucedidas. não ligo. desprezo a norma culta da melodia.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rostos marcados pela exploração
Bocas que por muito foram amordaçadas
Mãos de quem não fora permitida a escrita
Mão marcadas pelo enxague
pelas roupas lavadas
pelas banheiras esquentadas.

Protagonistas da história,
mas a margem da história
A frente das mudanças
sempre esteve presente
A história as tratou como margens.

As médicas,
bruxas.
As revolucionárias,
mal-amadas.
As feministas,
sujas.

Protagonistas da história
Não apenas de suas próprias
Mas das mais belas:
as emancipadoras, as libertadoras.

Na contemporaneidade, a opressão se traveste
Vai a uma festa a fantasia vinte-e-quatro horas por dia
Há um quê de crença no mimetismo dos que não buscam compreender.

Mas estas não se calam
Jogam água no rosto
Arrancam as mordaças
Colocam bandeiras na mão e na alma

Estão em todos os locais combatendo as raposas
Nas moradias, nas ruas, nos escritórios.

Há de haver sempre uma mulher expondo e combatendo a dor que a fazem sentir
Passando por cada avenida deste planeta.